Quartos blindados ganham espaço na arquitetura

O medo da violência tem levado paulistas e cariocas a montarem operações de guerra para se proteger. Depois da disseminação dos sistemas de vigilância interna, com direito a filmadoras nos quatro cantos do imóvel, a última palavra em segurança é a construção de células seguras ou “quartos do pânico” dentro de casa. O projeto é baseado nos bunkers construídos em áreas de risco de embate militar: paredes, portas e janelas blindadas podem resistir até a ataques com submetralhadores e fuzis. No caso das células de sobrevivência residenciais e comerciais, tudo vem devidamente decorado, em consonância ao projeto arquitetônico do ambiente.

Tanta proteção, é claro, custa caro. O metro quadrado de uma parede blindada não sai por menos de R$ 800. Uma porta básica, com chapa de aço embutida, vale cerca de R$ 3 mil. O nível médio de blindagem de janelas, por sua vez, custa de R$ 1 mil a R$ 1,2 mil o m². “O preço de um quarto de segurança varia muito, de acordo com as exigências do cliente. Podemos blindar uma única janela ou construir um cômodo inteiro com diferentes níveis de segurança”, explica o engenheiro Luis Stangenhaus, sócio da Vault & Digital, empresa paulista especializada na construção de bunkers.

Uma das pioneiras no mercado brasileiro, a empresa instalou desde 1992 cerca de 300 bunkers em São Paulo, dos quais 75% em residências. Inicialmente, a clientela estava de olho apenas em portas blindadas. Com a escalada da violência, sobretudo nos últimos anos, a proteção de todo o imóvel contra possíveis invasões ganhou escala. “Tudo começou em 1992, com a importação de uma porta blindada”, conta Stangenhaus. Dois anos depois, com know how e contratos em carteira, a própria Vault & Digital passou a fabricar as peças de forma artesanal.

A produção em larga escala teve início há três anos, com a contratação, em regime de terceirização, de uma linha da Cabel Industrial, fabricante de autopeças instalada em Santana do Parnaíba (SP). “Eles passaram a fabricar portas em série para a Vault e demais acessórios de segurança”, diz o engenheiro. Os itens mencionados variam de fechaduras superseguras a barreiras mecânicas, instaladas no chão, com o objetivo de impedir a entrada ou saída de veículos suspeitos como aquelas comumente encontradas em embaixadas. Atualmente, apenas as fechaduras eletrônicas de solenóides (condutores em espiral) ou eletromagnéticas são importadas.

O diferencial da Vault & Digital, segundo o engenheiro, está no tipo de serviço prestado pela empresa. Ao invés de apenas fornecer os equipamentos de segurança, os três sócios optaram por oferecer consultoria aos clientes, indicando quais níveis de blindagem estão mais adequados, o local de construção da célula de segurança pode ser um quarto, lavabo ou até mesmo um novo cômodo e, no final do projeto, a decoração. “É muito importante que a célula de segurança não fique evidente, justamente para não atrair a atenção de possíveis invasores”, justifica.

Dentro do bunker, podem ser instalados monitores a fim de acompanhar os passos dos supostos invasores no imóvel, geradores de energia e até um frigobar. Os itens adicionais, é claro, encarecem o projeto. “Tudo depende do tempo de socorro estimado em cada região”, explica o engenheiro. Com a entrada na célula de segurança e acionamento das travas de portas e janelas, a empresa de vigilância é notificada e o socorro é enviado. “Em locais mais ermos, como fazendas, a pessoa pode ficar até seis horas no ´safe room´”, justifica. Em edifícios comerciais, a tendência é blindar as alas que abrigam a diretoria.

Independente dos apetrechos que podem ser utilizados para garantir um mínimo de conforto em uma situação de risco e do custo adicional que representam, os negócios da Vault & Digital caminham de vento em popa. Além da expectativa de incremento dos contratos em São Paulo em 2004 devem ser construídos cerca de 60 novos bunkers no Estado, a empresa fechou parceria com a Absolut Blindagem Arquitetônica, com vistas no mercado fluminense. “O crescimento da violência no Rio tem gerado muita demanda por novos sistemas de segurança”, diz o engenheiro.

Casa Cor

As parceiras ganharam visibilidade nas edições paulista e fluminense da Casa Cor. Na exposição renomados arquitetos decoraram duas células de sobrevivência e os menos avisados sequer notaram a blindagem dos cômodos. “Em seis meses, encarteiramos 15 pedidos”, conta a gerente de Marketing da Absolut, Lúcia Xavier. No Rio, segundo ela, predominam os contratos residenciais. “Geralmente são residências de classe média e alta de condomínios ou ruas fechadas”, acrescenta.

Até o final do ano, a Absolut deve construir cerca de 150 bunkers no Rio de Janeiro. “Executamos desde o projeto à construção da célula de sobrevivência, incluindo a decoração do ambiente”, explica Lúcia. Um dos sócios da empresa é especialista em segurança blindada, com passagens por Israel e Estados Unidos. O outro sócio atua no mercado de engenharia civil e é proprietário de uma construtora voltada a grandes magazines. “O grande diferencial está no planejamento de segurança”, diz a gerente. Tanto a Vault-Digital quanto a Absolut não divulgam faturamento.

Fonte: Estadão

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